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Joy Buteco

Ex-funcionária diz que rendimento de clínica que aplicava vacinas falsas em Novo Hamburgo aumentou quase cinco vezes

Clínica foi fechada e proprietária de 27 anos está em prisão domiciliar. Equipe da RBS TV flagrou a prisão, como mostra a reportagem exibida neste domingo (18) no Fantástico.

ma ex-funcionária foi quem denunciou à polícia que uma clínica de Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, aplicava falsas doses de vacina, principalmente em crianças e bebês. O estabelecimento foi fechado na última quarta-feira (14). A proprietária da Vacix foi presa por crimes contra a saúde pública.

A equipe da RBS TV flagrou a prisão, como mostra a reportagem exibida neste domingo (18) no Fantástico (veja no vídeo acima).

Segundo a ex-funcionária, que não quis se identificar, o rendimento da clínica aumentou quase cinco vezes de agosto do ano passado a janeiro deste ano. “Desde que eu entrei, em agosto, [o rendimento] era R$ 5 mil, R$ 6 mil. Em janeiro foi R$ 20 mil, R$ 24 mil”, conta.

A dona da clínica era Luciana Sandrini Rihl, uma farmacêutica de 37 anos. Ela oferecia doses de vacina meningocócica conjugada ACWY e a vacina meningocócica B, que protegem contra meningites e infecções. Elas não são fornecidas pelo SUS. O preço das doses varia entre R$ 300 e R$ 600 nas clínicas particulares.

“Eu via as mães saindo de lá e dizendo: ‘Meu Deus, eu vou recomendar essa clínica pra todo mundo, essa clínica é maravilhosa, sempre tem vacina, a minha criança não chorou’. Porque o que dói na vacina é o líquido”, explica a ex-funcionária.

Conforme a investigação, a farmacêutica também oferecia vacina contra a febre amarela, que não existe na rede privada do Rio Grande do Sul, segundo a Secretaria Estadual da Saúde. Ela cobrava R$ 130 pelas doses, que sequer existiam no estoque da clínica.

“Foi aí que eu comecei a reparar que realmente ela estava fraudando”, relata a ex-funcionária.

“Ela não estava fazendo vacina porque nós não tínhamos as vacinas na clínica”, diz.

No local, a polícia encontrou vacinas vencidas e frascos vazios. Após ser presa, Luciana negou as acusações. “Nunca apliquei vacina vazia. É mentira”.

O advogado dela diz que a denúncia é falsa. “Não há vítimas, não há pessoas que se dizem lesadas. Há uma denúncia de uma ex-funcionária demitida que trouxe isso tudo ao conhecimento da autoridade policial”, afirma Luiz Gustavo Puperi.

Clínica de Novo Hamburgo foi interditada (Foto: Reprodução/RBS TV)Clínica de Novo Hamburgo foi interditada (Foto: Reprodução/RBS TV)

Clínica de Novo Hamburgo foi interditada (Foto: Reprodução/RBS TV)

Ex-funcionária diz que mesma seringa era utilizada

A ex-funcionária ainda fez outra denúncia sobre o assunto. À polícia, ela disse que a farmacêutica usava a mesma seringa nos pacientes.

“Era sempre a mesma seringa. Tem um rótulo azul na volta, era sempre aquela lá. Sempre aquela que ela usava. E aquela lá não tem como destacar a agulha”, descreve.

Isso ainda será investigado. Se se for comprovada a reutilização de material, a orientação é que os pacientes que foram expostos façam o teste de sífilis, hepatites B e C e HIV.

“Além desse crime grave contra a saúde pública, que a legislação brasileira considera crime hediondo, ela também ela praticou crimes de estelionato e contra as relações de consumo, que é o fato de expor à venda produto totalmente impróprio para a saúde e o consumo humano”, sustenta o delegado Rafael Liedtke, da Delegacia Especializada de Proteção ao Consumidor e Crimes Contra a Saúde Pública.

Proprietária de clínica também oferecia vacina contra a febre amarela, que não existe mais na rede particular do RS (Foto: Reprodução/RBS TV)Proprietária de clínica também oferecia vacina contra a febre amarela, que não existe mais na rede particular do RS (Foto: Reprodução/RBS TV)

Proprietária de clínica também oferecia vacina contra a febre amarela, que não existe mais na rede particular do RS (Foto: Reprodução/RBS TV)

‘Queria proteger ele’, diz mãe

A denúncia deixou pais que levaram seus filhos na clínica assustados. “Na verdade eu queria proteger ele e hoje eu vejo que acabei colocando, de certa forma, a vida e a saúde dele em risco”, desabafa uma mãe, que pediu para não ser identificada.

Por isso, a gerente da Vigilância em Saúde de Novo Hamburgo faz um alerta. “É muito grave, porque agora tem pessoas que estão se considerando vacinadas, de repente até crianças, e que na verdade não estão”, indica Lisa Gaspar Ávila.

“Muitas pessoas estão hoje achando que estão imunizadas. Elas podem ter ido para alguma área de risco em relação à febre amarela e podem ter ficado doentes sem saber que não estavam imunizadas”, comenta o secretário Estadual da Saúde, João Gabbardo dos Reis.

Os pacientes devem procurar a Vigilância em Saúde da cidade e também a Delegacia de Proteção ao Consumidor assim que possível.

“Todas essas pessoas que foram vacinadas nessa clínica a partir de determinado momento devem comparecer à Vigilância Sanitária do município de Novo Hamburgo. Nós vamos criar um QG lá para receber esses pacientes”, garante o secretário.

A Secretaria divulgou os seguintes meios de contato para tirar dúvidas: epidemio@novohamburgo.rs.gov.br e telefone (51) 3097-9411, das 8h às 17h.

Presa em casa

Frasco e seringa vazias eram usadas para enganar clientes (Foto: Fábio Almeida/RBS TV)Frasco e seringa vazias eram usadas para enganar clientes (Foto: Fábio Almeida/RBS TV)

Frasco e seringa vazias eram usadas para enganar clientes (Foto: Fábio Almeida/RBS TV)

Luciana teve a prisão preventiva convertida em domiciliar na sexta-feira (16). De acordo com a decisão da juíza Angela Roberta Paps Dumerque, substituta na 2ª Vara Criminal do Fórum da cidade, o caso da farmacêutica enquadra-se na previsão legal que estabelece a prisão domiciliar, já que ela possui dois filhos na faixa dos 10 anos de idade.

A suspeita também terá o passaporte apreendido. Ela estará proibida de deixar sua residência sem autorização judicial e de comunicar-se com a empresa, funcionários ou clientes da clínica.

Está também vedada a utilização de meios de comunicação. A pedido da polícia, a juíza ainda autorizou a quebra do sigilo do conteúdo armazenado nos aparelhos telefônicos apreendidos com Luciana.

Conselho Regional de Farmácia vai apurar conduta

O Conselho Regional de Farmácia (CRF-RS) informou que vai avaliar a conduta de Luciana, por meio da abertura de um processo ético disciplinar, que poderá gerar aplicação das penalidades, variando de uma advertência até a eliminação da profissão. Após a abertura de processo ético, o prazo de conclusão é de 180 dias.

Em um comunicado, o Conselho reforçou os cuidados que os pacientes devem ter, como observar documentos com autorização de funcionamento da clínica, por exemplo.

“É direito do paciente/usuário dos serviços acompanhar o rompimento do lacre de embalagens estéreis de seringas e agulhas descartáveis que serão utilizadas, assim como identificar o número do lote e a validade do produto (vacinas, medicamentos injetáveis, outros medicamentos, etc.), que obrigatoriamente serão registrados nos documentos a serem entregues como comprovantes do serviço oferecido”, diz o texto.

Conselho Regional de Farmácia aconselha pacientes a se informaram sobre autorização de funcionamento das clínicas (Foto: Fábio Almeida/RBS TV)Conselho Regional de Farmácia aconselha pacientes a se informaram sobre autorização de funcionamento das clínicas (Foto: Fábio Almeida/RBS TV)

Conselho Regional de Farmácia aconselha pacientes a se informaram sobre autorização de funcionamento das clínicas

(Foto: Fábio Almeida/RBS TV)

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