Home / Geral / Madonna acelera o lançamento oficial de ‘Rebel heart’
Joy Buteco

Madonna acelera o lançamento oficial de ‘Rebel heart’

20150309092642540008eA queda que interrompeu a performance de Madonna no encerramento dos Brit Awards, no mês passado, representa o caos ordenado em que a rainha do pop escolheu se envolver para a criação de ‘Rebel heart’, álbum que chega ao Brasil nesta semana. Derrubada com o puxão de uma capa amarrada ao pescoço, a cantora levantou-se e seguiu a interpretação de ‘Living for love’, carro-chefe do disco, sem demonstrar abalo após o acidente, que lhe causou uma entorse cervical.

“Se eu não estivesse em boa forma, não teria sobrevivido àquela queda. Mas sou forte”, disse ao The New York Times. A agilidade com que retomou seu número é a mesma que demonstrou ao rebater o vazamento de 13 gravações de ‘Rebel heart’ ainda em estágio inicial, no fim de 2014. Ela antecipou o lançamento de seis faixas já finalizadas, entrando no jogo ditado pela velocidade da internet.

A degustação já dava ideia de um trabalho bem mais interessante que os dois anteriores (‘Hardy candy’ e ‘MDNA’). O álbum completo (25 faixas) revela uma artista ainda mais ágil em captar tendências, munida de produtores que conduziram sua música a caminhos mais frescos do que os explorados na última década.

Kanye West, Avicii e Diplo são os principais guias musicais de ‘Rebel heart’ — daí sua sonoridade desordenada, por vezes confusa. Mas é a força da qual Madonna se gaba que transparece como combustível e condutor do novo trabalho. Nas canções, vantagens físicas dão lugar à marca forte do status conquistado ao longo dos mais de 30 anos de carreira.

Ainda que sua voz limitada não tenha ganhado muito desde o treinamento que a aperfeiçoou para ‘Evita’ (1996), é na arriscada combinação de colaboradores tão divergentes que a artista prova sua coragem. Se não fosse um álbum embalado em sua personalidade, a combinação não soaria uniforme. O experimentalismo que consagrou o time de parceiros também confere fôlego aos momentos mais espontâneos do CD, como quando ‘Unapologetic bitch’ funde reggae com EDM. Sob esse aspecto, Rebel heart realça a luta de Madonna contra quem menospreza a relevância de sua produção atual, especialmente por conta de seus 56 anos.

“Mulheres, em geral, quando chegam a uma certa idade, aceitam que não devem se comportar de uma certa maneira. Mas não sigo regras. Nunca o fiz e não vou começar agora”, disse à Rolling Stone. Autoafirmativa, ‘Bitch I’m Madonna’ é tão bem-humorada quanto qualquer outro trap assinado por Diplo e cresce com a inserção de Nicki Minaj, ao contrário das aparições no disco anterior.

Já a colaboração dispensável de Chance the Rapper em ‘Iconic’ não diminui a clássica mensagem de que o estrelato está ao alcance de todos, tampouco reduz o inusitado da introdução de Mike Tyson para a faixa. ‘Illuminati’ traduz o humor afiado da cantora em uma crítica às teorias da conspiração, mas também simboliza sua primeira aproximação bem-sucedida com o hip-hop, graças ao trabalho de Kanye. ‘Hold tight, Inside out’ e a excêntrica ‘Body shop’, de inspirações orientais, respondem pelo vanguardismo das produções, enquanto ‘S.E.X.’ e ‘Best night’ mantêm viva a persona sensual de ‘Erotica’ (1992).

ASSINATURA ‘Devil pray’ é exemplo de canção que só parece funcionar sob a assinatura de Madonna, com sua mistura de referências religiosas e menções ao uso de drogas. A produção de Avicii é dobrada à vontade da intérprete, revivendo a mescla de violões e batidas eletrônicas que surpreendeu fãs e críticos à época de ‘Music’ (2000). A autorreferência é um dos elementos básicos de ‘Rebel heart’, mas surge de modo mais fluido que nos discos anteriores. Quando a cantora acena para o passado e cita alguns de seus hits em ‘Veni vedi vici’, tem o cuidado de unir as recordações com versos confessionais do rapper Nas, para se redimir da autocelebração.

Em ‘Holy water’, chega a usar um trecho de Vogue, mas o sucesso de 1990 serve apenas como elemento de afirmação em sua ode ao sexo oral. Outros reflexos de trabalhos antigos são mais sutis, com destaque para a constante união profana de erotismo e religião.

‘Living for love’ une os requisitos para uma canção ideal na discografia de Madonna: tem batidas house, menção a Deus, trata de superação pós-decepção amorosa e, para deleite dos fãs de ‘Like a prayer’, traz de volta um coral gospel. Ao assumir elementos que a consagraram entre outras gerações, a popstar soa mais contemporânea do que nos flertes com as tendências datadas de seus dois álbuns anteriores.

As letras não eram tão intimistas desde ‘American life’ (2003), o que garante baladas honestas após longo período de produções superficiais. Entre estas, ‘Wash all over me’ brilha pela percussão exótica e por versos maduros. ‘Messiah’ e ‘Joan of Arc’ jogam com a alternância de dramas pessoais e referências religiosas. ‘Heartbreakcity’ e ‘Ghosttown’ são ainda mais cruas e se abrem com juras de amor em meio a lamentos. Mas fica com ‘Queen’ o mérito de um discurso franco de Madonna sobre a própria carreira, que levanta a questão: “Quem vai substituí-la?”.


DIVA ATEMPORAL
Confira momentos da carreira de Madonna que entraram para a história

JUSTIFY MY LOVE
Em 1990, as curvas sem remorso de Madonna e o jogo erótico proposto por ela no clipe de ‘Justify my love’ levaram a escritora Camille Paglia a classificá-la como “o futuro do feminismo”. A MTV baniu o vídeo, por conteúdo sexual explícito. Paglia elogiou Madonna por expor “o puritanismo e a ideologia sufocante do feminismo americano, que segue estacionado em um choramingo adolescente”. As imagens que acompanhavam os vocais sussurrados de Madonna (em sua primeira incursão pelo trip-hop) mostravam-na seminua, simulando sexo com um homem e uma mulher que trocavam de lugar a cada tomada. Com direção de Jean-Baptiste Mondino, fazia referências a voyeurismo, homossexualidade e sadomasoquismo. Parte da crítica previu o declínio de Madonna. Lançado em VHS para rebater a censura das emissoras de TV, ‘Justify my love’ ultrapassou o primeiro milhão de cópias no mesmo ano e tornou-se o single em vídeo mais vendido de todos os tempos.

LIKE A VIRGIN
A MTV contava apenas três anos quando decidiu lançar a própria premiação musical, nos anos 1980. Para o primeiro VMA, a emissora não conseguiu escalar nomes de alto escalão e abriu espaço para uma novata. Vestida de noiva, Madonna emergiu de um bolo de casamento para a performance de ‘Like a virgin’. O sapato da cantora saiu do pé, e ela precisou se abaixar para resgatá-lo. Com seu senso de oportunidade, rolou no chão. O vestido levantou, e a calcinha ficou à mostra. A cena se tornou icônica e impulsionou a carreira de ‘Like a virgin’. Em 2003, ela abalou novamente o planeta pop, reeditando aquela performance de estreia no mesmo palco do MTV Awards. Uniu Britney Spears e Christina Aguilera. Madonna assumia o papel de futuro marido para as noivas (as duas jovens cantoras). O trecho de ‘Like a virgin’ em dueto, a entrada de Madonna com marcha nupcial e os beijos em Spears e Aguilera entraram para a história do pop.

 

ATIVISMO NO PALCO
Em sua turnê mais recente, que passou pelo Brasil em dezembro de 2012, Madonna abriu espaço para as russas da Pussy Riot, levadas à prisão por Vladimir Putin. Um mês depois, destacou a paquistanesa Malala Yousafzai, “a menina de 14 anos que levou um tiro em um ônibus escolar por escrever um blog sobre a importância da educação”, resumiu Madonna, ao se referir ao nome estampado em suas costas. “Apoiem a educação! Apoiem as pessoas que dão apoio às mulheres”, convocou a cantora. Ambos os discursos aumentaram a visibilidade das militantes entre o público que consome música pop e para além dele. Em fevereiro de 2014, foi Madonna quem introduziu a Pussy Riot no palco do concerto dedicado à banda pela Anistia Internacional, declarando-se uma lutadora a favor da liberdade, “desde quando entendi que tinha voz e podia cantar sobre canções que iam além de ser uma garota material ou me sentir como uma virgem”. No mesmo ano, Malala recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

Sobre

Veja Também

Avião com DJ Alok sai da pista ao decolar em aeroporto de Juiz de Fora neste Domingo

Avião com DJ Alok saiu da pista em Juiz de Fora Reprodução Twitter Artista se apresentou ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *