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As margaridas que ninguém vê

Publicado dia 08/03/2019 às 09h24min | Atualizado dia 20/03/2019 às 22h43min
No dia internacional da mulher muitas vezes elas parecem invisíveis

Neste 8 de março, celebração do Dia Internacional da Mulher, a cena é das “Margaridas” em Carazinho. Grupo de 10 mulheres que, enquanto a cidade dorme, realizam a limpeza urbana, dia após dia

 

 

O clima é de descontração e cansaço. Quando entro na sala, para me apresentar como jornalista, o semblante vira de desconfiança. Estou ali procurando pelo grupo das “Margaridas”, composto pelas 10 mulheres que são responsáveis pela limpeza urbana na cidade, através de uma empresa terceirizada contratada pelo município de Carazinho. O clima de desconfiança na sala aumenta, afinal, não é todo dia que um grupo de mulheres garis se tornam pauta, principalmente no Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje.

Conforme a conversa vai acontecendo, passo a prender a atenção de algumas das Margaridas, que, mesmo cansadas da jornada – que começa às 5h – conversam e tornam o clima descontraído. Quando consigo uma afinidade, o tempo acaba e elas precisam ir para a parada de ônibus, afinal, o dia segue e a maioria delas ainda tem outra jornada de trabalho a tarde. Quando digo que volto no outro dia, para acompanhar uma parte do serviço na vassoura, ganho sorrisos. “Vamos te esperar”, disse uma das Margaridas, enquanto subia no ônibus.

Claudete Floriano

No outro dia, saio para encontrar as Margaridas e me junto a dupla Claudete Floriano e Elisângela Gomes, que varriam um trecho da Av. Flores da Cunha. Claudete, 52, já trabalha há mais de um ano  “na vassoura” – como elas mesmas caracterizam – e diz amar o que faz e, principalmente, valoriza as amigas que fez nesta trajetória. “Cada uma que vai entrando a gente já vai ajudando, mostrando como funciona. A gente tem que se querer bem, é muito importante essa harmonia, temos que ter união. Essa rixa entre mulheres não deveria mais existir, temos que dar força uma para a outra, para que continue trabalhando, porque não sabemos da necessidade da outra”, contou Claudete, que considera as Margaridas uma família.

Claudete me conta que trabalha desde os 11 anos de idade, quando precisou largar os estudos para ajudar a família, trabalhando com limpeza doméstica. Vinda de uma família com 11 irmãos, a gari aprendeu desde cedo que “a lida” era necessária, porém, com os seus cinco filhos, ela procurou fazer diferente. “Não quis fazer com eles o que meu pai fez comigo, tirando do colégio. Batalhei bastante para, pelo menos o estudo, poder dar aos meus filhos”, desabafou Claudete, sorrindo para a história que trilhou até aqui.

Reconhecer

Uma verdadeira líder, talvez pela maturidade e vivência, Claudete é generosa com a colega Elisângela, que está trabalhando de gari há sete meses, após se separar do marido e precisar de emprego. “Quem entrou nesse barco é porque precisa, então, respeito sempre. Quando entra uma colega nova, eu digo que somos família, uma apoia a outra quando é preciso”, avaliou Claudete, que fica apenas chateada pela falta de reconhecimento que o grupo da limpeza urbana recebe, pois entende a importância do serviço que exerce. “Muitas vezes não somos vistas e nem reconhecidas. Nós não limpamos a cidade só pra nós, mas para todos vocês”, relatou a gari, que pede que exista um olhar para a profissão.

Quando pergunto qual recado ela gostaria de transmitir às outras mulheres que irão ler esta reportagem, enfatiza: “Não desistam”. “Vão a luta, busquem seus espaços, não dependam de ninguém. Eu vejo o movimento de mulheres em busca de direitos e eu sou a favor, isso tem que acontecer. Independência é importante, corram atrás dos seus objetivos”, aconselhou Claudete, que ao fim da entrevista, superada a desconfiança inicial, me concedeu um abraço, daqueles que somente nós, mulheres, entendemos o valor.

 

Para se reinventar

O emprego na limpeza urbana veio como uma luz no fim do túnel para Elisângela, 30,  que apesar de já ter trabalhado com limpeza em outras ocasiões da vida, era dona de casa. A necessidade, vinda da separação do então companheiro, fez com que ela buscasse alternativas para seguir sua vida junto com as duas filhas.

Elisângela Gomes

Sobre o levante de mulheres que se manifesta pedindo por mais direitos e respeito, Elisângela concorda, afinal, a mulher ocupa locais de trabalho da mesma maneira que os homens. “A mulher deve ser respeitada, como qualquer outra pessoa, tem que ter igualdade no salário, por exemplo, quando a função é a mesma do homem. É necessário respeitar o espaço que conquistamos”, relatou a gari, que, para as Margaridas, só tem palavras de gratidão. “Foi muito importante o apoio delas porque eu, por exemplo, nunca tinha trabalhado na vassoura, não acompanhava o ritmo, mas elas me ajudaram”, revelou Elisângela, que concorda que a velha rivalidade entre mulheres tem que parar de existir. “A gente está no mesmo barco, somos iguais, trabalhamos, buscamos as mesmas coisas. Devemos nos dar força”, enfatizou.

Criada somente pela mãe, Elisângela tem mais cinco irmãos e não conheceu o pai. Realidade esta que desde cedo lhe mostrou o exemplo forte de uma mulher, sua mãe, que segundo ela, sempre lhe ensinou a ser forte, algo que lhe ajudou no momento difícil que viveu. “Eu descobri uma força de ser mulher dentro de mim, aprendi a lutar mais por mim, pelo meu direito. Quero independência”, refletiu a gari, que também afirma ter contado com a ajuda das Margaridas para seguir em frente.

Para o futuro de suas filhas, e para a próxima geração de mulheres que vem por aí, Elisângela deseja que sejam felizes e independentes. “Que elas tenham capacidade de fazer o que a gente não fez. Sejam felizes, busquem e alcancem o que desejarem”, comentou Elisângela, que já tem um coração forte de Margarida.

Generosidade

Há 20 anos trabalhando “na vassoura”, Angela Voigt, 40, faz parte do grupo mais maduro das Margaridas, tendo em vista que nesta gestão da limpeza pública está trabalhando há mais de um ano, e é a primeira a falar sobre a questão das Margaridas serem, de fato, uma família. “As colegas, o serviço, é como se fosse uma família, tenho para mim como família, estamos uma pela outra aqui”, relatou Angela, que foi uma das primeiras a conversar comigo no primeiro encontro que tive com o grupo.

Angela Voigt

Para as mais novas, Angela relata que a acolhida sempre começa pela amizade, afinal, estão todos os dias juntas e este é um trabalho que exige união. Isso as Margaridas fazem, se fortalecem. Se ninguém as vê. Elas mesmas buscam enxergar, verdadeiramente, umas as outras. “Tem gente que pensa que esse é um serviço ruim, até nos discriminam, mas é um trabalho que eu adoro, é digno como qualquer outro”, reforça a gari.

Também mãe de duas filhas, Angela relata que seu desejo é que elas cresçam, estudem e sejam felizes, nunca tendo vergonha de quem são. “Eu desejo paz para essa nova geração e que elas tenham tudo de bom nesta vida. Não dependam de ninguém, vão a luta e realizem seus sonhos”, afirmou Angela.

Até aqui, a profissão de gari não está no retrato oficial do Brasil. As mulheres garis não estão no retrato oficial. Passam batidas. Porém, neste 8 de março de 2019, as Margaridas vem para se colocar no retrato desta nova geração, buscando ressignificar e propor uma reflexão. É tempo de ouvir a voz das Margaridas. Com atenção.

Fonte: Web Noticias Alegrete

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